Eu sei, mas não devia
Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.
Marina Colasanti

Caro MNP, delícia começar a sexta-feira assim.
Um soco na cara, esse ensaio.
Só tenho uma dúvida: eu conheço este texto há uns 15 anos – aproximadamente – e meu registro era da Marina Colasanti. Será que estou enganada?
De toda forma ambas são puta escritoras e o texto não perde a força com minha dúvida.
Mas se vc puder me ajudar…beijos.
Callas Alice
21/05/2010 em 11:36
Boa pergunta. Não sei. Sorry.
Beijos.
mulhernaopresta
22/05/2010 em 1:23
Este texto foi escrito PARA MIM. #fato.
Adoro a Clarice!
Passa lá no blog e vê se não deu uma melhorada…
Beijos
Mulher de 40
21/05/2010 em 13:38
Podexá
mulhernaopresta
22/05/2010 em 1:40
Dona Clarice, sempre certa! Eu concordo em genêro, numero e grau. O problema de tudo é se acostumar.
Se puder me seguir no Twitter. Agradeço!
@Aldo_Henrique.
Aldo Henrique
24/05/2010 em 13:54
Não passou rsrsrs
Mulher de 40
26/05/2010 em 22:29
E olha q vim aqui e fazia tempo q eu não vinha. E fiquei pensando enquanto lia, e não é q esse cara tem sensibilidade?
e ao fim constatei q esse era um texto de uma MULHER rsrsrs
mas muito bom!
Obrigada por compartilhar
sati
01/07/2010 em 15:08
Já incorri desse erro, algumas vezes. Hoje, não chego a ser egoísta, mas também não vou ser “abusado”. Se a mulher for receber minha atenção, vai ter que fazer por merecer. Se prefere o cachorro que a trata mal, fique com ele e os 2 que se danem pra lá.
PS: O blog é muito bom cara, vim a conhecer há pouco tempo.
Helder
04/07/2010 em 23:07
Lindo texto, mas é da Marina Colasanti.
http://www.releituras.com/mcolasanti_eusei.asp
See ya.
Bia
05/07/2010 em 2:51
Massaaaaaaa!!!
Adriano
28/07/2010 em 0:45
Adoro esse texto… Marina escreve muito bem…
Seu blog é muito bom, parabéns =)
MeninaMulher
28/08/2010 em 17:31